No auge da festa


Tudo está aparentemente calmo dentro de casa. Um casal para aproveitar as festividades de fim de ano, chama os amigos e familiares para uma confraternização antes do natal. O ânimo está acima do permitido. A festa será o anticlímax das constantes brigas. Nenhum dos dois se lembra da origem das discussões, só sabem que se tivessem filhos, eles sofreriam bastante. O homem fica responsável por chamar os convidados e vai um pouco além, nesta hora:
— Você venha pra cá com um vestido vermelho bem curto, quando você dançar um tango, você vai mostrar tudo!
— Com quem você está falando? — pergunta a esposa quase instantaneamente.
— Venha, mesmo, há, há, tchau. Oi, querida, você falou?
— Com quem estava falando, com a Estela? Não quero essa mulher aqui!
—Não era ela, não se preocupe. Estava só brincando pelo telefone, não fique com ciúmes.
 Diante do sorriso malicioso do marido, ela diz uma frase:
— Quero ver a sua cara, quando eu rebolar na frente do Danilo; sempre quis saber se o dele é melhor que o seu.
No dia da festa, os convidados chegam e percebem o casal separado, mas também amigável com os mesmos. Os dois, um em cada canto do pátio, trocam olhares atravessados entre apertos de mãos calorosos e abraços de longa duração. Em algum momento, o marido sentado disse:
— Hoje, eu vou encher a cara, não haverá amanhã algo que me arrependa! Fui claro? —bem alto pra ninguém, e a esposa está bem a sua frente, finge que não o vê.
— Vamos dançar, quero dançar muito!—disse também a mulher como tivesse recebido uma descarga elétrica, sem ritmo, sem postura entre as mesas.
Os convidados pensariam de inicio que o casal bebera muito antes. Não estavam bêbados, estavam exibidos. Quais fatos justificam os atos? Ninguém sabia. A festa é uma esquisitice, embora continuasse sendo uma festa. Um imprevisto acontece, faltando luz todos continuam em seus lugares, só há desespero da parte dos anfitriões. Eles demonstram coisas absurdas:
— Querida, está sozinha?—pergunta o marido—Eu estou me dando bem.
— Você é o quê? Sei que você não é idiota, eu, porém, sou mais esperta e rápida!
— Qual é? Quer pagar de alguma coisa querida, você está se tremendo toda, eu sei, porque dá pra ouvir seu choro!
— Eu já senti o cheiro da sua urina daqui também, covarde... Você é tão covarde que planejou essa festa de palhaçadas, ao invés, de dizer na minha cara o que pensa!
— Eu planejei? Você também quis essa porcaria! “Vai ser bom pra nós dois“... Você disse isso! Lembra disso?
— Eu acreditei, por um momento, que você não seria egoísta. Egoísta!
— Quem quer ser a mamãe sabe tudo? Eu não quero outra mãe na minha vida! Eu sei pensar por mim mesmo, você não aguenta isso!
 O espetáculo poderia ser melhor, se houvesse luz; ninguém sabia da localização um do outro. Constrangidos ou não, ninguém pode observar em outro convidado.
— Esse casamento... Não sei se vai continuar, há muito tempo estamos assim. —diz o marido com uma melancolia.
— Estamos assim desde que você não consegue mais ter ereção...  Seu frouxo, ainda quer correr atrás de outras mulheres? Idiota! —revela a mulher.
— Que é isso? Eu não ando falando de você por aí, fique calada. — reclama o marido.
— É isso mesmo, admita: o problema é você!
— O problema é você e sua falta de higiene, não limpa nada dentro de casa, até mesmo o que deveria limpar no seu corpo.
A discussão estava alcançando limites além do ridículo, a exposição desnecessária indica que festa acabara e azedou. Aquela festa era por causa do casal, se não tem mais casal, melhor ir embora. Alguém do meio da escuridão:
— Pra vocês que ficam boa sorte. — o rangido de cadeiras é ouvido com topadas em outras mesas na penumbra.
Outro se levanta usando a função lanterna do celular. Muitas lanternas aparecem se guiando, atrás de uma saída. Um amigo do casal aparece e diz:
— Olha, eu vou embora, vocês dois lavem sua roupa dentro de casa.
A sujeira deles incomodara a todos, mas só alguns efetivamente saem, alguns outros convidados não vão, constrangidos por saírem sem se despedirem.
— Tá vendo! Por sua causa, todos foram embora! —grita a mulher.
— Besta! Eu não estou vendo, estamos no escuro!
— Vocês estão no escuro há muito tempo. — diz alguém.
Depois de um longo tempo a luz volta, porém não do mesmo jeito. O pátio não está cheio, mais pessoas querem ir embora com a segurança da luz. Um dos dois fala:
— Vamos continuar a festa, pessoal ainda tem bebida.
— Isso mesmo, vamos aproveitar. — completa o outro.
A festa só tem agora quatro pessoas, duas sendo o casal briguento. Foi realmente um banho de água gelada nas brigas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não escreve, não sei sobre você, escreva!

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...