Voto pra quem mesmo?


                 Carlinhos Lantus era um homem que todos só viam como garoto propaganda local. A menos de um ano atrás, ele intensificou nas aparições em comerciais da televisão e depois sumiu para reaparecer como candidato a vereador. Em sua campanha, decidiram que ele, Carlinhos, visitará a feira da cidade. Chegando na hora marcada começou a distribuir abraços, cumprimentos e votos de felicidade a feirantes e compradores. Flashes de câmeras piscavam e cada ato do candidato, sem poses as fotos eram as mais naturais possíveis. Carlinhos sorria a todo instante. Depois da passagem dele por uma das barracas, estando a metros de distância, um feirante comentou:

                — Carlinhos só aprendeu hoje o caminho da feira. —dizendo a um outro colega feirante que caiu na risada.

                Depois do passeio, o candidato voltou ao seu carro com a equipe, foram direto pra casa dele. Enquanto os outros descansavam, Carlinhos pegou uma garrafa de álcool embaixo da pia da cozinha e lava as mãos com o produto. A esposa o vê e o repreende:

                — O que você está fazendo? Está desperdiçando o álcool! Não se usa assim, não!

— Eu tenho que limpar minhas mãos da sujeira desse povo! Você precisava ver, até a cara deles parecia suja!

— Lave as mãos com sabão, não exagere!

— Lavo com álcool mesmo, eu paguei por ele!  — nisso usa quantidades fartas do produto.

A mulher se cala, mas um colega de equipe chegando à cozinha vê a cena e indaga:

— O que foi? Você se cortou, Carlinhos?

— É nada, ele está se lavando de uma sujeirinha nas mãos!— responde a esposa pelo esposo.

— Você precisava mesmo fazer isso? Você vai estar em campanha o tempo todo, não vai sobrar tempo pra isso, — dizendo, apontou para a pia molhada com álcool. —melhor você se acostumar.

— Não quero! Vou comprar mais garrafas de álcool e lenços para me limpar. Não vou fazer a mesma coisa que o Bush fez. Sabe? Quando ele e Clinton estiveram no Haiti e o Bush limpou a mão na blusa do outro. Não temos a mesma cara, sou mais esperto. — disse Carlinhos.

— Você pode ficar hipocondríaco desse jeito. —diz o homem.

— É só durante a campanha, depois não vou ver mais a cara dessa gente.

                Depois eles voltam pra central do partido, discutir os próximos passos da campanha. No vaivém de ideias, é proposto que Carlinhos faria mais pequenas incursões e visitas rápidas em locais de concentração de eleitores como a que foi realizada mais cedo, na feira. E com objetivo de se ter várias fotos do candidato, espera-se duplica-las com programas de computador. A perfeição da campanha espelha um candidato eleito, assim há comemorações antes da hora. Carlinhos entre amigos e bebidas desabafa como lida com os infortúnios, afinal nem tudo são flores no caminho para o sucesso. Logo os eleitores souberam disso e comentam:

                — Nunca mais vou querer saber daquele sujeito! Sujo é ele!

                — É mesmo, a mente dele que é suja, pensando mal da gente e precisando de nós, safado!

                Carlinhos não foi eleito e suas palavras afetaram até sua imagem de credibilidade como garoto propaganda.

 

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