O preconceito está ao lado


                    Dois colegas estão atravessando uma praça. Não param de contar de piadas e rir delas próprias. Não sendo o bastante, olham ao redor em busca de mais. O que ri menos, observa mais e ainda diz:

                — Olá lá, tem uma pequena e ela está olhando pra você. — tinha uma garota sentada em dos bancos da praça.

                — Talvez ela esteja olhando pra cá, nem sei se é pra mim mesmo... Parece distante.

                — Ela tá sim. — sendo insistente o observador.

                — Ela está de óculos escuros. Não vou ser dispensando, ela pode não estar olhando.

                — Deixa de ser mole. Vá lá. Você vai perder. —provoca.

                Acatando a ordem, foi em busca de recompensa, no outro lado da praça. Estranhamente volta sem nada, mostrando a falta de sorrido no rosto. Ele diz:

                — Ela é cega, ela não estava olhando pra mim.

                — Puxa! Bom, o problema é seu. Você quis ir, então aguente.

                — O que eu vou fazer com uma cega? O que eu vou perder, hein, sabe tudo?

— Presta atenção — querendo acalmar o colega—, ela é cega, não vai ver o que você fará...

— Eu tenho cara de cão-guia? Pois é isso que eu irei me tornar, se andar com ela. Você não ajuda em nada.

—Calma! Se você não mais ela, você decide. Só pensei em alguma vantagem pra você, sendo bonzinho com ela.

— Que vantagem! Tudo que fizer, teria esse fardo pra pensar. Quero ir embora, vamos!

— Tudo bem.

— Só espera um momento, menti pra ela sobre o que vim fazer agora, só vou me despedir.

Ele refaz a caminhada até ela que também, agora, com uma evidente bengala, antes não percebida por eles, na mão. Ele diz sem jeito:

— Olha tenho que ir, tudo bem?

— Tudo bem, deu pra perceber que você não estava querendo mesmo ficar.

Ele sai e fica confuso se o que ela disse foi alguma coisa indireta. Ele comenta com outro, sem obter resposta. Será que ela tinha malícia suficiente pra fazer isso? É uma pergunta na cabeça dos dois. Eles terminam de atravessar a praça com pressa de recuperar o tempo perdido.

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